domingo, 16 de março de 2008

In corpo


meu corpo é tudo
aquilo que não me toca
aquilo que não me vê
aquilo que não me sente

meu corpo não é alma
não é pão
nem é raro

o meu corpo se desfaz
em grãos de areia
em vento parede e vácuo
em formatos deformados
em mim
em nada

raso meu corpo
se confunde
com as teclas
com a caneta
ou pincel

meu corpo
não me é
mas sim
simultaneamente
me incorpora
poro
após
poro
traço
após
traço

meu corpo é tudo aquilo que não me toca

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008




O vento pula a janela
O papel voa quase livre
Os armários se libertam
Mostram o que possuem
Rangendo suas manivelas
A coberta em cima da cama
Se insinua linda solitária
Até onde sei os quadros
Só observam analistas
Uma folha permeia um ambiente
Que não lhe pertence
Mas nem por isto está acanhada
A máquina de escrever
Bate os dentes banguelos
Sem qualquer proteção
E tudo isso
só por causa
De um choro
De uma lágrima
De uma dor qualquer
De um sentimento inútil
Dá próxima vez
por favor
que for sofrer
Feche a maldita janela.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Não espero
Nada mais de mais nada
Não faço questão
De não questionar
Não há mais nada
Em que acreditar
Não há mais espera
Não há mais nada
Além do que esse
Eterno inferno do
Vai e vem
Vai e vem
Infinita volta ao nada
Nada além do nada
Não espero
Só desespero
Nadando no nada
Afogando nisso
Que não passa de mim

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Devoltaavoltadaidanãoidanãotidadavoltasemvinda

Tudo há um começo
E no fim tudo começa
Tudo há um final
E no início tudo finaliza

Uma folha que cai
Não cai
Se solta
Plana
Avoa

Um carro
Que bate
Não bate
Abraça
O poste
Ama

Todas variantes possíveis
De algumas coisas
Podem não dizer nada
Por isso são sábias
O silêncio
Esse sim
É o melhor conselho



&


Desespero
Se faz com calma
Se faz calado
Se faz quieto
Quase ordinário
Quase planário

Fica se esperando
Esperando
No coração
Confabula
Alucina
Se imagina já
Morto
Mesmo se estando
Menos vivo

Desespero
Se faz com calma
De esperar
O ponteiro do relógio
Andar para trás

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

há peso nas palavras que é de escada errante


Minha melhor poesia.
Minhas melhores rimas.
Minha melhor (de)cadência.
Melhor história.
Melhor inspiração.
Melhor conclusão.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

não me convenho nem me vou

(revisões)


Eu quero ir para um lugar
Aonde eu aprenda
A não me comunicar

Quero um silêncio
Que não me escute
que não me lembre
nem que me engane
que me seja apenas


não se faça
de desconhecida
a situação foi
gerada e concebida
pela sua estadia
em um instante
de distração
atrativa

não me venha
não dizer
que tem
nada com isso
que com nada
sempre teve
disso eu sempre
sei disse

não me olhe
para outro lado
ou me destoque
em um estocado
sou passado tanto
quanto o presente
seu ali do lado

não me finja
nem me arrisque
não se risca
fico com afinco
sou o risco não me ri
nem me rio do teu riso
seco-me de tanto afogar
em teu riso

não sou sombra
nem holograma
nem estêncil
nem desenho
portanto
o importante
que não
me projete
em um
muro
em um
quadro
em um
guardanapo
e bote
numa estante
e me esqueça
ali
por alguns
infinistantes



Em meus pensamentos
Te trago
Te bebo
Te sugo
Te sufoco
E enfim
Te amo
Em teus sentimentos
me esqueço




A árvore marginal
Do rio
Enfeitada
Como se fosse natal
(mas é páscoa)
Em vez de bolas
Pneus
E sacolas




No céu uma nuvem
Desgarrada
Reclama
Sua privacidade




me acusa
se acusa
nos acusa

a acusação
é a causa
disso tudo

desdá nosso nó(s)
eu pra cá
você pra lá

re(s)tos e firmes






me assusta a grande dança d'uma mudança diária do nada

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

sou passageiro de um trem fantasma

sou passageiro de um trem
fantasma fantasiado
de brevidade orválhica
sou mero
sou efêmero
só passo
passageiro
de um trem fantasma
em um dia
minha estádia
se resume
em suma
de instantes
instantâneos
feito de penas de chumbo
que somem com o respirar
de uma formiga asmática
você vê meu deslocamento
enquanto vejo você ficar em minha frente
de olhos espelhados contemplativos
sou vapor
movido a vácuo
sou sombra
de um vírus
duro
tento durar
o máximo
um instantinho
sou passageiro
em mim mesmo
você na minha frente
e um trem
que não se movimenta
me vejo distanciar
fantasma
orvalho
asmática
estádia
vácuo
vírus
mim



a preocupação
disso
é o instante
em que
me des
mancho
toda
a pintura
que rabisco
com nuvens
brancas
de sua íris
nada disso importa
mais
do que
a folha que não cai nunca
dum banco que sentamos
e falamos
sobre
o canto
das bocas
que são
sujos
e ocultos
e nesse instante
me desmancho